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Com a guerra, biocombustíveis viram ativo estratégico do Brasil

Foto: Reprodução da Internet

Os biocombustíveis deixaram de ser, no Brasil, apenas uma agenda ambiental relevante. Com a escalada do conflito entre EUA, Israel e Irã, eles passam a ocupar um espaço muito mais sensível: o de ativos estratégicos de segurança energética, capazes de reduzir, ainda que parcialmente, a exposição do país a um choque externo de petróleo, frete e derivados. O que antes era apresentado sobretudo como política de descarbonização agora se consolida também como resposta econômica e geopolítica. 

A mudança de patamar não decorre de retórica, mas de contexto. A alta recente do Brent, impulsionada pela piora da crise no entorno do Estreito de Ormuz e ataques à infraestrutura de produção e armazenamento, recolocou no centro da discussão global um velho problema: países excessivamente dependentes de combustíveis fósseis importados ficam mais vulneráveis quando a energia entra no campo de batalha. 

É justamente nesse ponto que a posição brasileira se diferencia. Desde agosto de 2025, a gasolina comum e a aditivada passaram a circular com 30% de etanol anidro, enquanto o diesel opera com 15% de biodiesel. Essa arquitetura regulatória não blinda o país de uma crise internacional, mas cria um colchão estrutural: uma parcela maior do consumo nacional já é suprida por produção renovável doméstica, reduzindo a dependência direta de combustíveis fósseis. 

O etanol é hoje a face mais visível dessa mudança. Dados recentes da ANP mostram gasolina C na faixa de R$ 6,30 por litro, etanol hidratado próximo de R$ 4,60 e diesel S10 ao redor de R$ 6,15. Essa fotografia sugere duas leituras simultâneas. A primeira é que o etanol entra no atual choque externo em patamar relativamente competitivo. A segunda é que, se o petróleo permanecer pressionado, o biocombustível tende a ganhar atratividade adicional, sobretudo para a frota flex, ampliando sua função como amortecedor de preços. 

Há ainda um aspecto estrutural. O valor do etanol não está apenas na bomba, mas na sua incorporação obrigatória à gasolina. Em momentos de estabilidade, isso é visto como política energética e ambiental. Em momentos de guerra, passa a ser também política de resiliência econômica. Quanto maior a participação do anidro na mistura, menor a necessidade relativa de gasolina fóssil para atender o mercado interno. 

No biodiesel, a lógica é semelhante, embora menos visível para o consumidor final. O diesel é o combustível mais sensível à logística do país, pois atravessa frete rodoviário, transporte de cargas e agronegócio. Em um cenário em que a tensão no Oriente Médio eleva o custo internacional dos combustíveis fósseis, cada ponto percentual de mistura obrigatória ganha peso estratégico. 

Esse reposicionamento altera também a leitura política dos biocombustíveis. Em condições normais, etanol e biodiesel costumam ser discutidos sob o prisma da transição energética e das emissões. Sob risco geopolítico, passam a ser vistos também como instrumentos de soberania econômica. 

Isso não significa blindagem. O Brasil continua exposto ao petróleo internacional, ao preço do diesel e ao custo do frete global. A diferença é que entra nesse cenário com instrumentos capazes de amortecer parte do impacto. 

O principal efeito da crise, portanto, é mudar a hierarquia do debate energético. A agenda ambiental continua presente, mas deixa de ser a única moldura interpretativa. Etanol e biodiesel passam a ser também instrumentos de redução de vulnerabilidade externa e de fortalecimento da autonomia energética

Num mundo em que o petróleo voltou a carregar prêmio geopolítico, os biocombustíveis ganham uma nova centralidade. Mais do que parte da transição climática, tornam-se elemento da infraestrutura estratégica de energia do país

Fonte: G1
Nélio Wanderley

Nélio Wanderley

CEO da Posto Seguro Brasil e sócio da Nortear Energy empresas de Consultoria e de Assessoria ao mercado de combustíveis Graduado em Administração e Gestão Comercial, Pós-graduado em Marketing, Pós-graduando em Gestão Pessoas e Comportamento Organizacional. Experiência profissional de mais de 30 anos na área Comercial, Gestão de Novos negócios (desenvolvimento de carteiras nas Distribuidoras de Petróleo), Gestão de Projetos, Gestão de Lubrificantes e Gestão de Rede de Postos, com carreira desenvolvida em empresas como: Atlantic, Ipiranga e Ale.

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